CASA E CAMINHO


 
 

 

De Carta Maior (www.cartamaior.com.br)

 

Rede de comunicadores em apoio à reforma agrária

No dia 11 de março, será realizada, a partir das 19 horas, no auditório do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo (rua Rego Freitas 530) uma reunião para montagem da “rede de comunicadores em apoio à reforma agrária e contra a criminalização dos movimentos sociais". Manifesto de lançamento do grupo denuncia a ofensiva dos setores conservadores no Brasil contra a reforma agrária e qualquer movimento que combata a desigualdade e a concentração de terra e renda.

Manifesto de lançamento

Está em curso uma ofensiva conservadora no Brasil contra a reforma agrária, e contra qualquer movimento que combata a desigualdade e a concentração de terra e renda. E você não precisa concordar com tudo que o MST faz para compreender o que está em jogo.

Uma campanha orquestrada foi iniciada por setores da chamada “grande imprensa brasileira” – associados a interesses de latifundiários, grileiros - e parcelas do Poder Judiciário. E chegou rapidamente ao Congresso Nacional, onde uma CPMI foi aberta com o objetivo de constranger aqueles que lutam pela reforma agrária.

A imagem de um trator a derrubar laranjais no interior paulista, numa fazenda grilada, roubada da União, correu o país no fim do ano passado, numa ofensiva organizada. Agricultores miseráveis foram presos, humilhados. Seriam os responsáveis pelo "grave atentado". A polícia trabalhou rápido, produzindo um espetáculo que foi parar nas telas da TV e nas páginas dos jornais. O recado parece ser: quem defende reforma agrária é "bandido", é "marginal". Exemplo claro de “criminalização” dos movimentos sociais.

Quem comanda essa campanha tem dois objetivos: impedir que o governo federal estabeleça novos parâmetros para a reforma agrária (depois de três décadas, o governo planeja rever os “índices de produtividade” que ajudam a determinar quando uma fazenda pode ser desapropriada); e “provar” que os que derrubaram pés de laranja são responsáveis pela “violência no campo”.

Trata-se de grave distorção.

Comparando, seria como se, na África do Sul do Apartheid, um manifestante negro atirasse uma pedra contra a vitrine de uma loja onde só brancos podiam entrar. A mídia sul-africana iniciaria então uma campanha para provar que a fonte de toda a violência não era o regime racista, mas o pobre manifestante que atirou a pedra.

No Brasil, é nesse pé que estamos: a violência no campo não é resultado de injustiças históricas que fortaleceram o latifúndio, mas é causada por quem luta para reduzir essas injustiças. Não faz o menor sentido...

A violência no campo tem um nome: latifúndio. Mas isso você dificilmente vai ver na TV. A violência e a impunidade no campo podem ser traduzidas em números: mais de 1500 agricultores foram assassinados nos últimos 25 anos. Detalhe: levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostra que dois terços dos homicídios no campo nem chegam a ser investigados. Mandantes (normalmente grandes fazendeiros) e seus pistoleiros permanecem impunes.

Uma coisa é certa: a reforma agrária interessa ao Brasil. Interessa a todo o povo brasileiro, aos movimentos sociais do campo, aos trabalhadores rurais e ao MST. A reforma agrária interessa também aos que se envergonham com os acampamentos de lona na beira das estradas brasileiras: ali, vive gente expulsa da terra, sem um canto para plantar - nesse país imenso e rico, mas ainda dominado pelo latifúndio.

reforma agrária interessa, ainda, a quem percebe que a violência urbana se explica – em parte – pelo deslocamento desorganizado de populações que são expulsas da terra e obrigadas a viver em condições medievais, nas periferias das grandes cidades.

Por isso, repetimos: independente de concordarmos ou não com determinadas ações daqueles que vivem anos e anos embaixo da lona preta na beira de estradas, estamos em um momento decisivo e precisamos defender a reforma agrária.

Se você é um democrata, talvez já tenha percebido que os ataques coordenados contra o MST fazem parte de uma ofensiva maior contra qualquer entidade ou cidadão que lutem por democracia e por um Brasil mais justo.

Se você pensa assim, compareça ao Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, no próximo dia 11 de março, e venha refletir com a gente:

- Por que tanto ódio contra quem pede, simplesmente, que a terra seja dividida?

- Como reagir a essa campanha infame no Congresso e na mídia?

- Como travar a batalha da comunicação, para defender a reforma agrária no Brasil?

É o convite que fazemos a você.

Assinam:

- Altamiro Borges
- Antonio Biondi
- Antonio Martins
- Bia Barbosa
- Cristina Charão
- Dênis de Moraes
- Giuseppe Cocco
- Hamilton Octavio de Souza
- Igor Fuser
- Joaquim Palhares
- João Brant
- João Franzin
- Jonas Valente
- Jorge Pereira Filho
- José Arbex Jr.
- José Augusto Camargo
- Laurindo Lalo Leal Filho
- Luiz Carlos Azenha
- Marco Aurélio Weissheimer
- Renata Mielli
- Renato Rovai
- Rita Casaro
- Rodrigo Savazoni
- Rodrigo Vianna
- Sérgio Gomes
- Vânia Alves
- Verena Glass
- Vito Giannotti

Importante: A proposta é que a rede de comunicadores em apoio à reforma agrária tenha caráter nacional. Esse evento de São Paulo é apenas o início deste processo. Promova lançamentos também em seu estado, participe e convide outros comunicadores para aderirem à rede



Categoria: Casa
Escrito por FRANCISCO JOSIVAN às 14h37
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POR UM TANTINHO DE VIDA

A possibilidade de re-inaugurarmos o mundo, compondo-o com notas melódicas e poéticas, como faz o artista com sua composição religio-musical (entendo o "religio" como o que une o humano ao seu profundo ser próprio), é o que nos impulsiona ao trabalho possível de pensador-poeta e poeta-pensador.

Às vezes, nos ocupamos demasiado na elaboração científica (o que é científico?) de nossas saídas para a transformação necessitada de sempre outra transformação e esquecemo-nos, ao fim, de sentir o prazer do caminho ("A beleza está é no caminho", como bem afirma Gumarães Rosa) rumo à casa (Cada ponto de chegada, na subida da montanha, deve ser ponto de partida, como bem afirma Nietszche).


A vida pede poesia e utopia.




Escrito por FRANCISCO JOSIVAN às 17h27
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O SER (II)

Eis que me descobri não-existente! Na verdade, sequer me descobri, posto que não-existente. O que há, pois? O invento... o re-invento constante: Ouroboros... Como-me me inventando me faço me comendo... quando morro nasço e morro...

 

Não-sou, posto que serei... ah, o devir...

 

Tudo está confuso como está escrito! Não é que eu não-seja, mas é que sou projeto. Não sou conceito pronto e acabado e não serei acabado nunca, porquanto não me acabo, já que sou um projeto infinito (neste caso, como bem afirma Leonardo Boff[1]).

 

O Ser, portanto, não pode ser tomado como um conceito estagnado. O problema está justamente em que alguns assim o tomaram.

 

Na ânsia (talvez, mas nem sempre) de chegar a uma definição clara do Ser, investiram-se muitos nas explicações solipsistas euro-centrais. O problema daí consequente: “O Ser é. O não-ser não é”. Reafirmaram categoricamente, religiosamente, cegamente, num antiesclarecimeno, num anti-iluminismo febril o que dissera Parmênides na antiga Grécia. Cometeram um erro medi-ocre! Para muitos dos menos afeitos à Filosofia Grega está clara a oposição Parmênides-Heráclito, bem como as consequências de cada uma das posições filosóficas. Vale, então, o meu parêntesis depois da palavra ânsia logo acima: nem sempre o desejo foi de entender o Ser; ao contrário, muitas vezes o objetivo foi justamente ocultá-lo em suas manifestações diversas ad infinitum.

 

Assim, pois, sou, sendo devir. A negação do devir é a negação do meu Ser como tal. Negar que posso Ser e reinventar-me, deixando de ser para Ser Mais, é negar a minha constituição de ser buscante, o meu caráter de gerúndio.

 

Quantas informações, quantos conceitos, quantas declarações e situações e coisas afins vemos em meios de comunicação considerando o ser como acabado! Note-se (e o leitor poderá e deverá observar isto sempre!): quem tem direito à utilização da expressãoquaseconceito Ser como projeto aberto (e por quais motivos), por um lado; quem recebe dos mesmos meios a cangacargaconceitual de ser-acabado, para o qual não há mais jeito, por outro lado... [mais que uma interrogação aqui serão necessárias]

 

Os diabos e deuses em mim são, na verdade, o meu modo de ser, comendo-me e me reinventando (vale o diálogo entre Jesus-Deus-Diabo na obra do Saramago[2]).

 

Por fim, aliás, por enquanto, não posso deixar-me contido e nem me deixar formado. A minha abertura ao mundo é o meu modo-de-ser; nem a minha submissão ao mundo, nem deste a submissão a mim: abro-me, sendo reinventado, enquanto reinvento-me e reinvento o mundo: “Nós descemos e não descemos pelo mesmo rio, nós próprios somos e não somos” (Heráclito, o Obscuro).

 



[1] Refiro-me à obra Tempo de transcendência: o ser humano como um projeto infinito, do teólogo Leonardo Boff. Na obra, o autor tece comentários filo-antropológicos acerca do Ser, estabelecendo um bom diálogo entre sua própria obra teológica e algumas contribuições do Existencialismo heideggeriano e sartriano. Vale a leitura, como um gostoso livro de teo-ontologia.

[2] Refiro-me à obra O evangelho segundo Jesus Cristo, do escritor português José Saramago. A umas tantas, os três (um só) personagens se encontram a fim de que as tramas da vida e da morte de Jesus (mas não somente) passem por seu diálogo.



Escrito por FRANCISCO JOSIVAN às 19h13
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A FABRICAÇÃO DO BRASIL (3)** - E ÚLTIMA

Uma Nova Imaginação

As fabricações do Brasil, bem como de sua história, obedecem às normas cultas da linguagem e às lógicas do desenvolvimento civilizacional do mundo. Não somente quem ocupa um terreno e nele trabalha tem direito à posse do terreno (como queria John Locke[1], posto que ele foi superado), mas, mais ainda, quem inteligentemente lidera os trabalhadores do terreno deve possuir o terreno e mais ainda os corpos dos produtores do terreno, em nome do Mercado (que tem uma mão que não sabemos onde está).

 

*Marcha dos camponeses na fazenda Cuiabá para a ocupação final do conjunto de edifícios que formam a sede da propriedade. Sergipe, 1996. –Foto: Sebastião Salgado – Livro: Terra

 

No entanto, as fabricações do Brasil fizeram deste um País no qual milhões trabalham para alguns poucos lucrarem desse trabalho. O suor de milhões alimenta as garrafas de vinho de alguns poucos; o alimento de milhões não pode ser oferecido aos animais de estimação de alguns poucos sob risco de os animais se recusarem à tamanha baixeza.

Ao final das contas, porém, não é possível fabricar (de ficção, mesmo – com referência a Clifford Geertz[2]) um País sem um imaginário. Move-se o povo ("um ovo", segundo Affonso Romano de Santanna[3]) a partir de um imaginário e "precisamos de um novo imaginário" (Cornelius Castoriadis[4]). Um imaginário que faça dos povos que habitam a região geográfica que hoje denominamos Brasil potências de vidas e re-vidas constantes, a partir de suas riquezas culturais próprias (religiões, mitos, ritos, jogos, práticas educacionais...).

*Reunião de indígenas na Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Fonte: CIMI – Conselho Indigenista Missionário.

 

Não precisamos de explicadores do Brasil a partir dos vencedores, como intelectuais que lêem o já escrito e a partir do já escrito escrevem a história. Necessitamos de histórias contadas pelos vencidos, leitores (obrigatoriamente, em bancos escolares) dos escribas vencedores e destes críticos, forjando uma nova história e um novo imaginário, possibilitador de uma nova realidade (sempre insatisfatória, mas processualmente vital). Não queremos evoluir (como queria Edward Tylor[5]), mas vitalizar o humano - ou re-vitalizar. Como a Caetano, não nos basta Pátria, ousamos querer Mátria e, mais ainda, Frátria.



[1] Filósofo empirista inglês (1632-1704).

[2] Clifford Geertz é um antropólogo estadunidense (1926-2006).

[3] Poeta, ensaísta e cronista do Estado de Minas Gerais, Brasil, nascido em 1937.

[4] Filósofo grego (1922-1997), autor de A instituição imaginária da sociedade.

[5] Antropólogo britânico (1832-1917), é o maior expoente do chamado evolucionismo cultural e autor da obra Primitive Culture, de 1871.

 

 

 

**Trata-se de um artigo originalmente publicado na edição nº 310 do Jornal Brasil de fato (nas bancas ou ver site: www.brasildefato.com.br). Aqui, ele está dividido em 3 sub-artigos, dos quais este é o último.  



Escrito por FRANCISCO JOSIVAN às 14h40
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A FABRICAÇÃO DO BRASIL (2)*

Conhecendo a língua dos residentes cá, usariam os métodos advindos de-além-mar para comunicarem com mais facilidade e eficácia: nada como o teatro maravilhoso europeu; entendendo os nomes dos seus pseudo-deuses, lhes garantiriam que esses a quem eles clamavam eram, na verdade, demônios maus e, felizmente, sem força diante do grande Deus que agora conheceriam; analisando a sua forma de organização política, lhes provariam que não era correta, posto que o rei de-além-mar, nomeado por Deus e dEle representante, é que na verdade sabe governar como ninguém, na justiça vinda dos céus, em vista da construção da "Cidade de Deus"; observando a divisão do trabalho, lhes garantiriam que por aquela forma não chegariam nunca a lugar nenhum, de forma que deveriam aprender a trabalhar o máximo possível para a realeza que sabia-mais-que-eles, esperando o favorecimento de Deus, presente nas bugigangas que nunca veriam não fossem os povos de-além-mar.

PRISIONEIRAS DA GUERRA DE CANUDOS

[Foto de Flávio de Barros, em 1897 - Prisioneiras de Canudos]¹

O problema foi que nem todos entenderam o projeto: alguns advindos (ou filhos de advindos com as mulheres de cá) decidiram que não seriam os detentores-do-sagrado os possuidores da terra (um engano semântico), mas eles, pois trabalharam muito mais. E essa posse deveria ser contra os que cá moravam antes dos advindos, pois que eram preguiçosos e não mereciam estas terras, posto que não sabiam trabalhar. Havia que, pois, provar a nesciência e a selvageria dos habitantes de cá e lhes tomar as terras (mesmo que às custas de guerras, pois as guerras têm como objetivo algo grandioso: uma grande pátria).

Outro problema ainda maior: alguns residentes cá, não tendo compreendido a proposta dos advindos, ou mesmo selvagens "pela própria natureza", decidiram guerrear contra os advindos, contra o projeto de Deus e a proposta do rei (por tabela). Foi preciso muita tinta para explicar as façanhas épicas dos grandes lutadores por parte dos advindos: muita selvageria tiveram de enfrentar os filhos-bem-nascidos destas terras que se tornou Brasil graças aos povos advindos do norte de-além-mar.

Outros povos, vindos do sul de além mar, também chegaram cá e, pela benevolência dos povos do norte de-além-mar que aqui residiam ou dos filhos destes, fizeram parte da fabricação faustosa deste Brasil. Evidentemente, nunca tiveram condições intelectuais ou humanas de fazer deste um País pelo qual poderíamos nos ufanar. Por isso, lhes foi bondosamente reservado o lugar de escravos, posto que era uma posição muito melhor que trabalhador em países como a Alemanha.

Houve quem se rebelou contra a bondade dos benfeitores desta Nação, desafiando a grandeza do Brasil e demonstrando o quanto o animal feroz vindo do sul de-além-mar tinha ainda de aprender a ser humano. A saída da Nação foi usar as suas forças, para o bem do Brasil, contra os rebeldes, que fugiam para altas serras ou longínquas florestas, prometendo uma divisão do País. Derrotados, tiveram de pagar o preço de não se encaixarem no projeto Civilizacional da Nação.

Mais tarde, com uma já partejada característica nacional, percebeu-se a grandeza dos homens aqui residentes desde sempre. É verdade a força dos vindos de-além-mar-norte, mas é mais verdade ainda a grandeza hercúlea dos indígenas Tupi. Tinham, claro, entre os residentes desta Nação, alguns que eram preguiçosos e que nunca fariam deste um País faustoso. No entanto, a figura da terra, da selva, conhecedora dos rios, das plantas, das artes nativas; rica em conteúdos culturais nativos e sabedora do seu lugar, de forma que não se metia onde não era chamada; essa figura era o herói nacional. Diante dela, reconheceríamos a nobreza de Robespierre, a sabedoria dos Césares, a indestrutibilidade de Hércules, a paixão de Orfeu... Peris, Tupãs, Tibiriçá são os nomes gloriosos desta terra.

O Brasil era "gigante por sua própria natureza". As suas maravilhosas matas explicavam o futuro desta Nação sem limites.

Entretanto, a Nação tinha de descobrir com mais clareza a sua missão e precisava criar uma característica que fosse grande como a sua natureza e respondesse ao crescimento mundial: precisava ter um caráter puro brasileiro, de um povo nascido a partir das grandes navegações e da coragem dos povos do norte-atlântico. Ainda selvagem, o Brasil precisava entrar na era da evolução positiva.

Os advindos do sul-atlântico e os aqui residentes antes das ocupações do além-mar, inferiores naturalmente, deixariam lugar a um grande povo: firme, dotado de valores republicanos, branco, aberto ao conhecimento científico e para ele capacitado, dotado da riqueza cultural das belas artes, amante do amor racional e cristão e base para uma Nação com as características das nações européias, exemplos da civilização.

O caminho, pois, era investir no enriquecimento cultural do povo. Por isso, nada mais natural que criar escolas para os filhos dos homens nobres desta Nação, possuidores de grandes bocados de terras e, portanto, somente quem poderia fazer do Brasil um País rico. Os filhos dos homens da fazenda não abandonariam, em momento algum, os incapacitados e, se estes não se rebelassem contra o País, lhes dariam o que-viver cotidiano: panem et circenses.

Ia ficando evidente, pouco a pouco, que o Brasil somente não era ainda a primeira grandeza mundial por causa da preguiça inerente aos advindos e filhos dos advindos do sul-atlântico e aos residentes cá antes da ocupação (por Deus querida) dos advindos do norte-atlântico.

A solução era, com certeza, tomar as rédeas do desenvolvimento e dá-las a quem de direito, distribuindo os poderes entre os explicadores do Brasil. Àqueles que teimavam em fazer do Brasil um País ainda sem crescimento (situação presente apenas em localidades nas quais a cultura superior não tinha ainda conseguido ser priorizada) deveriam ser explicados os motivos do Brasil estar "em vias de dar certo", quando "já teria dado certo" se fossem apenas considerados os elementos da cultura superior como fundamentais para a Nação. Desta forma, ainda, fundamental era considerar prioridade as riquezas culturais de la cultura des beaux-arts, des ciences, nascidas nas localidades nas quais a civilização foi mais benevolente com o Homem: a Europa. Assim, não mais poderiam ser tolerados movimentos que levassem ao atraso do Brasil, sobretudo que tais movimentos entrassem em choque com a vocação civilizacional brasileira.

Houve quem decidiu mastigar as beaux-arts, comendo-as e fazendo uma arte que, queriam, fosse nacional: Bach, Debussy, Monet, Eliot, Shakespeare, Voltaire... foram devorados e desses ritos de devoramentos - quiseram os devoradores - nascia o Brasil Moderno - "Tupi or not Tupi/That is the question".

Porém, as explicações do Brasil ainda lhe colocavam como um "País do futuro". "O caminho é a indústria!" Massas de humanos saíam de casa, agora, não mais para a roça ou para o boteco, mas para o emprego. Sem isso, o Brasil seria pobre para sempre! Havia que formar a massa para o trabalho técnico e explicar-lhe da importância do seu trabalho: o Brasil era como uma grande locomotiva, sendo todos os vagões muito importantes para a Nação e cada vagão era um trabalhador; assim, ninguém poderia querer abandonar o seu posto, de forma que, se assim fosse, o Brasil descarrilaria.

A grande locomotiva havia? Sim, mas todos os vagões deviam constantemente ficar em seus devidos lugares, posto que todos os vagões caminhariam juntamente com a grande locomotiva, fazendo do Brasil a grande Nação do século XX.

Houve quem decidiu fazer diferente... A explicação? Exploração do trabalho humano. Um mito implantado por um judeu de que a mais-valia é exploração e de que o operário nunca conquistará o que constrói. Como não, se tudo o que se constrói é para todos e todos participam de tudo?

Como dantes, contra os atrasadores do Brasil um grupo se levantou e fez do Brasil um grande canteiro de obras por décadas. Reclamava-se da fome? Sim, mas era impaciência de crianças que estão prontas para comer o bolo de aniversário antes mesmo que esteja ele assado. A solução era deixar o bolo crescer...

E que venha a Copa do Mundo de futebol...

 

 

 

¹Consta que muitas/os das/os prisioneiras/os de Canudos eram indígenas, negros ex-escravos ou descendentes diretos que, sem ter onde produzir, viram em canudos uma oportunidade de sobrevida. Com a imagem de Canudos, desejo lembrar as dezenas de revoltas organizadas pelo Brasil afora contra o modelo de colonização e exploração empregado pelos autoditos civilizados. As revoltas indígenas, as revoltas quilombolas, as revoltas religioso-políticas, as revoltas republicanas e econômicas; todas elas, hoje contadas pelo vencedores, provocam a esperança deste país, mas devem ser retomadas a partir das falas dos vencidos.

 

*Trata-se de um artigo originalmente publicado na edição nº 310 do Jornal Brasil de fato (nas bancas ou ver site: www.brasildefato.com.br). Aqui, ele será dividido em 3¹ sub-artigos, dos quais este é o primeiro.         (No artigo anterior, informei 5: incorreto)



Escrito por FRANCISCO JOSIVAN às 13h46
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A FABRICAÇÃO DO BRASIL (1)*

Padre Antonio Vieira convertendo os índios do Brasil. Arquivo histórico ultramarino - Lisboa, Portugal

Padre Antonio Vieira convertendo os índios do Brasil. Arquivo histórico ultramarino - Lisboa, Portugal

 

A formação do Brasil não é matéria de geografia, de história, de economia e das demais ciências apenas. Ao contrário, à formação do Brasil responde também, como matéria e como conditio sine qua non de fabricação deste país, a tarefa do imaginário. Para alcançar os seus objetivos, os fundadores deste país tiveram sempre às suas mãos engenho e arte, com o que criaram os mais variados mitos e as mais variadas aventuras e a forjação de uma nação “grande e livre”.

 

O processo de fabricação mitológica do Brasil obedece, como boa narrativa, aos mais requintados padrões das mais variadas formas literárias: texto teológico, literatura épica, poesia romântica, trovadoresca, humanista, modernista. Sem, necessariamente, obedecer à ordem de estilos literários conforme mencionados acima.

 

A primeira tentativa de fabricar a terra chamada Brasil mito-literariamente, após a documentação oficial e o registro de posse (pela Carta de Caminha), é a teológica. A grande disputa de então é acerca da bondade ou da maldade inerente(s) aos povos aqui residentes (por acaso) quando da faustosa ocupação de direito das terras. Eram os povos daqui dotados de alma? Sim ou não? Por detrás da resposta – não importando qual fosse – estava a certeza de que a explicação era teológica. Bons, os residentes das terras recém-ocupadas seriam certamente advindos de Deus tanto quanto os homens da Europa; se maus, tinham como origem o demônio, sendo, portanto, necessitados da catequização para realizar, ao menos, a salvação de suas almas.

 

Em qualquer das respostas, a explicação teológico-cristã dava conta da origem, do destino e da explicação da necessidade da catequização: eram maus – por isso a catequese; eram bons, mas sem deuses – por isso, a catequese.

 

Mitológicas Explicações

Assim, pois, a primeira experiência de explicar o Brasil, nas mãos dos detentores do sagrado e de seus textos (os sacer-dotis), fundamenta a necessidade de uma religião forte e monoteísta aqui; uma religião que fosse capaz de des-bestializar os selvagens aqui residentes e fazer, das terras do Brasil, posse de Deus, geridas espiritualmente pela Igreja e, temporalmente, por aqueles que, "tementes a Deus e por Ele guiados", descobriram essas terras maravilhosas e as gentes daqui para o bem da Igreja. De forma que os descobridores seriam, também, por Deus escolhidos como os gerentes, com registro em cartório, das terras da Santa Cruz.

 

Havia que explicar o Brasil para os residentes, por acidente, no Brasil. Mais que isso: explicar a existência do mundo a partir de um criador macho, único, omni-potente, omni-presente e omni-sciente para aqueles que, embora bons, não conheciam a verdadeira forma de agradar a Deus e sequer tinham conhecimento do Deus verdadeiro; era a obra de primeira necessidade entre os explicadores-do-sagrado.

 

Assim, pois, conhecer as línguas dos residentes, bem como as suas crenças e os seus costumes, é fundamental para dizer-lhes que todo esse tempo estão agindo errado. No entanto, por obra da bondade de Deus, os explicadores-do-sagrado cá estavam justamente para corrigir esse problema.

 

 *Trata-se de um artigo originalmente publicado na edição nº 310 do Jornal Brasil de fato (nas bancas ou ver site: www.brasildefato.com.br). Aqui, ele será dividido em 5 sub-artigos, dos quais este é o primeiro.



Escrito por FRANCISCO JOSIVAN às 16h20
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O SER (I)

Em tempos de morte, fazer a morte é tarefa facilitada. Oh!, tarefa por demais difícil a vida deu a este que agora escreve: provocar a vida! Nem Hades tem tarefa tão lastimosamente difícil e paradoxa!

A sensação é a de que tenho de parar constantemente para ver que o que faço está errado. Errado por ser oposto a tudo o que se faz... Quando conheço quem faz o mesmo que eu, me rio da desgraça, solidariamente.

Até hoje, não escolhi o que tenho nem o que conquistei. A vida me foi dando ou retirando de acordo com o seu bel-prazer. Nao escolhi, tampouco, o que sou e, na verdade, não sou: sou o nada sendo, negando o ser e o nada. Em repouso, provoco; ativo, paraliso.

A vida não me ensinou a escolher: fui escolhido ou negado. As coisas (os entes) me foram dados ou negados, conforme a tragicidade da vida. É isso: a vida sem escolhas é TRÁGICA! No drama da errância, a errância é trágica!

O paradoxo, porém, é que, não-escolhendo, escolhi. Escolhi o dizer não à escolha e, assim, promovi o sim para outrem: o destino, os deuses, o diabo...

Quando decidi não fazer, aí é que fiz. Quando decidi fazer, desconstruí, desfiz. Nem um ou outro foi opção minha: estava à frente...

À porta aberta, entrei, vi, voltei, mudei... Quando fechada, fiquei, esperei, olhei, desisti, mudei... Alguém, vendo que eu entrara, decidiu olhar lá dentro, depois que saí, e mudou sua própria vida... Alguém, fitando-me paralisado diante da fechada porta, desafiou a minha lógica e, arrombando a porta, entrou; se gostou ou não, saiu, aos prantos.

Em tempos de morte, a minha tarefa é a mais hedionda e a mais vital: provocar a vida. Não sei fazê-lo e, assim, tentando, faço-o.

Sobre o canto que é em meu ouvido sussurrado: entristece-me o fato de estar aqui tão fechado, o oxigênio ser pouco, não haver espaço para correr, não possuir acústica para o grito preso em mim (que haverá de continuar, como um câncer imortífero)...

Daqui, já viajei o mundo... Voltei ao ventre (erro de minha vida que, não houvesse, não seria a vida minha?) e, de lá, sem passar por cá, fui até o mais profundo de algum oceano (nas profundezas, os oceanos são inominados) e, passando pelo inferno inexistente, fi-lo existir em mim; também fui aos bosques: lá encontrei deusas e deuses, dançantes e cantantes (poetas); não é lá o paraíso, mas em mim...

Em mim, diabos e deuses, infernos e paraísos, mares e riachos, selvas e bosques, vida e morte... Tudo me faz ser o que sou: um negador do nada, sendo-o. Isso é dramático! Infinitivo é trágico!

VIVER É GERUNDIAR... ANDO...



Categoria: Casa
Escrito por FRANCISCO JOSIVAN às 20h46
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Convido meus amigos e leitores para o show de Bédi Figueredo, onde faremos uma abertura, unindo poesia e música, numa bela cantação de estórias.



Escrito por FRANCISCO JOSIVAN às 14h38
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Escrito por FRANCISCO JOSIVAN às 14h25
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Escrito por FRANCISCO JOSIVAN às 14h23
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Escrito por FRANCISCO JOSIVAN às 14h20
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Peça de Fco Josivan é Premiada!

"Água é Vida em Severina",
peça teatral escrita em verso, com trechos musicados,
foi vencedora no "Concurso Inovações Eco-Teológicas" - III edição,
da Faculdade de Teologia da Pontificia Universidade Javeriana (Bogotá)
e da Fundação Ecológica e Ambiental "CREAÇÃO",
promovido pela Agenda Latino-Americana.

O Concurso é mundial e premia temas que sintonizem com
as Causas Latino-Americanas.

Em breve a Peça será publicada no sítio da Universidade e disponibilizaremos,
aqui, o link para que possam conferir
esse trabalho Inovador, de Beleza Poética e de Grande Sensibilidade
com as Causas das Minorias Latino-Americanas.
 
          PARABÉNS POETA!
                                              
    Postada por Cristal



Escrito por FRANCISCO JOSIVAN às 14h11
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Para sua casa, Flores! Para seu caminho, Asas de Luz!



Escrito por FRANCISCO JOSIVAN às 13h35
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Retirante

Escrito por FRANCISCO JOSIVAN às 12h04
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Retirante

Bem ao longe vejo a serra

É miúda de distância

Ao passado muita espera

Neste tempo de errância

Do meu peito em choro e guerra

Mas o errante um dia cansa

 

Lá distante vejo um velho

Sei quem é e me apresso

No seu olho o amar sério

De mais distância me despeço

Vai nascendo mais mistério

Do sempre andar pro lugar verso

 

Águas, aves, plantas, frutas

Inda presentes cá estão

E o coração mulher escuta

De novo a voz do filho joão

Que mar de hãs, rosas e lutas!

Que sem fim o caminhar ser tão!

 



Escrito por FRANCISCO JOSIVAN às 11h38
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