O SER (I)

Em tempos de morte, fazer a morte é tarefa facilitada. Oh!, tarefa por demais difícil a vida deu a este que agora escreve: provocar a vida! Nem Hades tem tarefa tão lastimosamente difícil e paradoxa!

A sensação é a de que tenho de parar constantemente para ver que o que faço está errado. Errado por ser oposto a tudo o que se faz... Quando conheço quem faz o mesmo que eu, me rio da desgraça, solidariamente.

Até hoje, não escolhi o que tenho nem o que conquistei. A vida me foi dando ou retirando de acordo com o seu bel-prazer. Nao escolhi, tampouco, o que sou e, na verdade, não sou: sou o nada sendo, negando o ser e o nada. Em repouso, provoco; ativo, paraliso.

A vida não me ensinou a escolher: fui escolhido ou negado. As coisas (os entes) me foram dados ou negados, conforme a tragicidade da vida. É isso: a vida sem escolhas é TRÁGICA! No drama da errância, a errância é trágica!

O paradoxo, porém, é que, não-escolhendo, escolhi. Escolhi o dizer não à escolha e, assim, promovi o sim para outrem: o destino, os deuses, o diabo...

Quando decidi não fazer, aí é que fiz. Quando decidi fazer, desconstruí, desfiz. Nem um ou outro foi opção minha: estava à frente...

À porta aberta, entrei, vi, voltei, mudei... Quando fechada, fiquei, esperei, olhei, desisti, mudei... Alguém, vendo que eu entrara, decidiu olhar lá dentro, depois que saí, e mudou sua própria vida... Alguém, fitando-me paralisado diante da fechada porta, desafiou a minha lógica e, arrombando a porta, entrou; se gostou ou não, saiu, aos prantos.

Em tempos de morte, a minha tarefa é a mais hedionda e a mais vital: provocar a vida. Não sei fazê-lo e, assim, tentando, faço-o.

Sobre o canto que é em meu ouvido sussurrado: entristece-me o fato de estar aqui tão fechado, o oxigênio ser pouco, não haver espaço para correr, não possuir acústica para o grito preso em mim (que haverá de continuar, como um câncer imortífero)...

Daqui, já viajei o mundo... Voltei ao ventre (erro de minha vida que, não houvesse, não seria a vida minha?) e, de lá, sem passar por cá, fui até o mais profundo de algum oceano (nas profundezas, os oceanos são inominados) e, passando pelo inferno inexistente, fi-lo existir em mim; também fui aos bosques: lá encontrei deusas e deuses, dançantes e cantantes (poetas); não é lá o paraíso, mas em mim...

Em mim, diabos e deuses, infernos e paraísos, mares e riachos, selvas e bosques, vida e morte... Tudo me faz ser o que sou: um negador do nada, sendo-o. Isso é dramático! Infinitivo é trágico!

VIVER É GERUNDIAR... ANDO...